A língua de Avatar

Idioma criado por linguista para filme de James Cameron recorre a sonoridade atraente e junção de línguas exóticas aos ouvidos ocidentais

Nem alienígenas azuis, nem efeitos especiais em três dimensões. Em Avatar, primeiro filme do diretor James Cameron após Titanic, o artifício mais engenhoso fica por conta do idioma concebido pelo linguista Paul Frommer para o planeta Pandora, palco dos conflitos entre humanos e os seres da raça Na’vi. O filme chegou ao Oscar como o novo recordista mundial de bilheteria, com mais de US$ 1,9 bilhão arrecadados.

Em 2005, Cameron entregou a Frommer, então chefe do departamento de linguística da University of Southern California, um roteiro que continha, entre outras coisas, 30 termos do que viria ser a língua fictícia – em sua maioria, nomes de personagens e animais – cuja sonoridade assemelhava-se à das línguas polinésias. A partir disso, o linguista criou um vocabulário alienígena composto por mil palavras, com estruturas sintáticas e morfológicas emprestadas de diversas línguas, com preferência pelas mais exóticas, como o persa e algumas africanas.

Desde o início do ano, Frommer tem declarado à imprensa norte-americana que o fato de Cameron ter passado uma temporada na Nova Zelândia deve tê-lo feito reter algo da pronúncia maori [idioma falado pelos nativos da Nova Zelândia e das Ilhas Cook, no Pacífico]. Porém, mesmo com essa impressão inicial, ele procurou expandir a ideia contida no roteiro de Cameron, criando uma ortografia nova, sem comparação com nenhuma outra língua humana – algo “de outro planeta”.

Para conseguir esse efeito, Frommer estabeleceu princípios para nortear seu trabalho, características que pudessem conferir uma “aura alienígena” ao idioma em andamento: contraste de tons, vogais com diferentes durações e as chamadas consoantes ejetivas [“consoante oclusiva produzida com corrente de ar egressiva, a partir da glote”, segundo definição do dicionário Aurélio].

Essa aura alienígena, no entanto, é só aparência, argumenta o linguista e lexicógrafo Francisco Borba, autor do Dicionário Unesp do Português Contemporâneo.

– Aos ouvidos menos atentos, uma língua artificial, como a de Avatar, pode parecer extraterrestre. No entanto, está tudo dentro das possibilidades do aparelho fonador humano, e o que parece exótico é, na verdade, aquilo que soa “estranho” à cultura ocidental – afirma Borba, que diz ter gostado do filme de Cameron, além de ter achado coerente o fator linguístico da obra.

Infixos
No Na’vi não foram incluídos os sons b, j ou ch justamente para evitar parentesco com as línguas ocidentais. Também foram privilegiados sons produzidos com a língua e os lábios, sem ajuda dos pulmões, como costuma explicar Frommer, valendo-se do dialeto sul-africano Xhosa como referência. Outra peculiaridade seria a presença de infixos. Para mudar o tempo do verbo taron (“caçar”, pronunciado como “gadon”), por exemplo, em vez de acrescer uma sílaba ao início da palavra, acrescenta-se depois da letra t (tovaron, telaron, tusaron etc.).

– Várias línguas possuem infixos, como as bantu [tronco de boa parte dos idiomas africanos trazidos para o Brasil durante a escravidão], cujo plural se faz usando infixos dentro dos radicais – explica Borba.

O argumento de Borba reforça a tese do exotismo linguístico pelo qual Cameron e Frommer enveredaram.

– Tudo que fuja do ramo itálico, de onde veio o latim, ou do germânico, de onde vieram o sueco e o inglês, por exemplo, é estranho aos ouvidos ocidentais – afirma o dicionarista brasileiro.

A criação de línguas artificiais para filmes e universos fictícios não é novidade na indústria cultural (o assunto chegou mesmo a ser abordado em “Idiomas de mentirinha”, em Língua 46). Na campo da literatura, J. R. R. Tolkien, autor da série O Senhor dos Anéis, inventou 15 idiomas para sua saga, adaptada para os cinemas por Peter Jackson.

Klingon
Já a língua klingon, da clássica franquia Jornada nas Estrelas, ganhou até dicionário, com 2 mil verbetes e 800 mil exemplares vendidos. O idioma surgiu em 1984 em Jornada nas Estrelas III: À Procura de Spock. Mais tarde, o linguista Marc Okrand foi contratado para o seriado A Nova Geração com a missão de elaborar uma estrutura sintática e lexical para a língua.

Para se ter uma ideia da repercussão do klingon entre os fãs da série, foi criado um instituto com base no trabalho de Okrand – o Klingon Language Institute (www.kli.org) -, que conta com 600 membros, diálogos em linguagem extraterrestre e até traduções de clássicos da literatura, como Hamlet de Shakespeare, para a língua dos trekkers [apelido dos fãs de Jornada].

Diante dessa tradição em idiomas ficcionais, talvez não tenha sido coincidência o fato de a atriz Zoe Saldaña, a “poliglota” tenente Uhura de Jornada nas Estrelas: Um Novo Começo, ser convidada para interpretar a alienígena Neytiri em Avatar. No sucesso do ano passado, Uhura se arvora de falar três “dialetos” romulanos, uma raça alienígena.

Improviso
Na pré-estreia de Avatar em Los Angeles, em dezembro, Cameron afirmou que a presença de Zoe no elenco foi um capricho do destino, pois a atriz tinha sido escalada antes mesmo de descobrirem sua fluência em línguas “fantasiosas”.

O linguista narrou à imprensa, em dezembro, um episódio curioso: Cameron, no meio de uma cena, decide que o personagem vai relembrar um incidente no qual leva uma mordida no traseiro. “Como se diz ‘grande rabo azul’ em Na’vi?”, perguntou o diretor a Frommer, que, surpreso, pensou: “A palavra ‘grande’ já tenho. ‘Azul’ também. Mas ‘rabo’, não”. Às vezes o linguista tinha a resposta na ponta da língua, mas quando o cerco apertava, respondia: “me dê cinco minutos, OK?”, e saía para pensar.

Frommer, que já escreveu um livro de linguística com exercícios de decifração do klingon, diz torcer para que o Na’vi tenha uma vida longa e independente como a do idioma de Jornada nas Estrelas. Afinal, toda língua é um mecanismo dinâmico e traz dentro de si o germe da transformação. Mas o linguista da Califórnia admite também que sua criação dependerá de uma comunidade homogênea e coesa como a dos trekkers para mantê-la viva.

Expressões em Na’vi

Irayo Obrigado
Skxawng! Idiota!
Atxkxe Terra
Kaltxì. Ngaru lu fpom srak? Olá, como vai você?

(Edgard Murano, “A língua de Avatar”, revista Língua Portuguesa n. 53, Março/2010)

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