Resenha do livro Lustra, recém lançado em português, publicada na revista Metáfora n. 2

Por Edgard Murano
Ezra Pound (1885-1972) foi o que se pode chamar de gênio literário acima do bem e do mal. Apesar de suas preferências políticas algo duvidosas, que, diga-se de passagem, lhe renderam muitos dissabores, a militância poundiana pela causa da poesia é o que realmente importa –, legado esse que está longe de ser esgotado pela literatura. Prova disso é o lançamento de uma edição bilíngue de Lustra (Annablume Editora, Selo Demônio Negro), livro da fase “jovem” do poeta, mais conhecido pelos textos críticos e pela obra-prima The Cantos, já vertida para o português por José Lino Grünewald.
Para Dirceu Villa, responsável pela tradução do inglês para o português, Lustra é um livro “definidor na carreira de um dos maiores poetas do século 20”. Isso se deve ao fato de a obra condensar e adiantar várias ideias de tradução, além de técnicas poéticas que marcariam a poesia poundiana, como a imitação e as personae [personalidades].
O poema “Para a jovem amiga de Formiano”, por exemplo, é quase uma tradução de um poema do romano Catulo (84 a.C. – 54 a.C.):
“SALVE! jovem com um nariz / de modo algum pequeno, / Com um pé sem graça, / e olhos que não são pretos (…)”.
Outro poema que ilustra bem seu método de tradução e apropriação de poéticas antigas é “Dompna pois de me no’us cal”, feito a partir de uma canção de Bertrand de Born, em provençal, e captada em português elegante por Villa:
“Senhora, já que nada queres comigo, / E já que me afastas de ti sem sequer um / Motivo, / Não sei onde procurar,/ Pois se vivo / Sem jamais reunir tal jeito, / Tão rica alegria sem defeito (…)”.
Se Pound é conhecido por sua contribuição à modernidade da linguagem poética, isso não se deve apenas à reabilitação de autores antigos, mas também à renovação de dicções estrangeiras e remotas, adaptando e recuperando-as à sensibilidade moderna. A exemplo do que o próprio Pound fazia, Villa enriquece o poema “A condolência” com uma tradução forte e marcante, que literalmente tem “aquilo roxo” (Red Bloods, no original):
“Oh colegas no sofrer, cantos da juventude, / Um bando de burros adora vocês serem ‘viris’, / Nós, vocês, eu! Nós temos ‘aquilo roxo’! (…)”.
Fruto de um projeto de mestrado levado a cabo por Villa, a tradução de Lustra surge como opção de entrada ao universo complexo de Ezra Pound, haja vista que The Cantos pode assustar com suas quase mil páginas e centenas de referências. Com edição primorosa da Annablume, cujo selo Demônio Negro vêm publicando grandes nomes da poesia (entre eles Glauco Mattoso), os poemas de Lustra apresentam um frescor de linguagem à altura do original, com musicalidade e imagens que, de certa forma, sintetizam as conquistas estéticas da literatura no século 20.
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