As engrenagens literárias

Obra do crítico James Wood mostra que há muito a ser dito sobre a mecânica dos clássicos

O ensino da técnica narrativa cai com facilidade nas fórmulas prontas e em análises superficiais de obras consagradas. Da técnica descontextualizada à pura receita (não raro com tons de autoajuda), poucos nesse segmento são capazes de fundir essas duas instâncias no ensino da arte de escrever, e ainda assim manter com dignidade um papel renovado para a tradição crítica da melhor estirpe. O crítico inglês James Wood, no entanto, acerta a mão em Como Funciona a Ficção (Cosac Naify, 2011), lançado no Brasil com tradução de Denise Bottmann.

Editor da revista The New Yorker, Wood busca no livro a compreensão da narrativa em seus sinais de vida pulsantes, e discute os clássicos sem, contudo, reverenciá-los. Torna acessíveis teorias herméticas. Afasta-se das leituras ideológicas. Aproxima-se, enfim, de uma visão sensorial do fazer literário, sem didatismos nem jargões acadêmicos que podem colocar a perder o que realmente interessa: a delícia de uma boa ficção e um balanço informado sobre o “como escrever”. 

Para isso, Wood passa em revista o cânone literário internacional sem esconder suas predileções. Sobretudo pelo romancista Gustave Flaubert, por exemplo. O crítico considera que o autor de Madame Bovary elevou a níveis extremos a potencial separação entre forma e conteúdo, destacando-se pela “poética da frase”. Em casos assim, o crítico é ele mesmo exemplo de uma forma que expressa um conteúdo de maneira exemplar.

Talvez por isso nem caiba, propriamente, explicá-lo – e, com isso, oferecer uma crítica de segunda natureza, sob o risco de ilhar o acesso ao original, sendo ele vital o bastante para dispensar comentários paralelos. Pois no caso de Wood vale entrever um estilo que, em si, já contém uma visão específica sobre a literatura.

Assim, apresentar alguns trechos da obra [abaixo] equivale a dar voz a um texto chamado James Wood, com seus movimentos particulares e também suas respostas singulares a questões sobre as quais não parecia haver outras coisas a se dizer. Como Funciona a Ficção é a evidência mais clara, no mercado editorial de crítica literária, de que ainda há muito a ser dito sobre literatura.

A literatura está nos detalhes
A literatura é diferente da vida porque a vida é cheia de detalhes, mas de maneira amorfa, e raramente ela nos conduz a eles, enquanto a literatura nos ensina a notar – a notar como minha mãe, por exemplo, costuma enxugar a boca antes de me beijar; (…) os riscos esbranquiçados numa jaqueta velha de couro que parecem estrias de gordura num pedaço de carne; (…) como os bracinhos de um bebê são tão rechonchudos que parecem amarrados com linha.

Elo estranho
O tipo de metáfora que mais me agrada (…) é aquela que cria um estranhamento e logo em seguida faz uma conexão, e, ao fazer tão bem esta última, oculta o primeiro. (…) Em Rumo ao Farol, a sra. Ramsay dá boa-noite aos filhos e fecha cuidadosamente a porta do quarto, deixando “a língua da porta se estender devagar na fechadura”. A metáfora nessa frase não consiste tanto na “língua”, que é bastante convencional (pois as pessoas falam nas linguetas das fechaduras), mas está secretamente enterrada no verbo “estender”.

Ânimo vital
O realismo, visto em termos amplos como veracidade em relação às coisas como são, não pode ser mera verossimilhança, não pode ser meramente parecido ou igual à vida; há de ser o que devo chamar de vida animada [lifeness]: a vida na página, a vida que ganha uma nova vida graças à mais elevada capacidade artística. E não pode ser um gênero; pelo contrário, ela faz com que as outras formas de ficção pareçam gêneros. Pois esse tipo de realismo – a vida animada – é a origem.

Real e irreal
Talvez porque eu não saiba bem o que é um personagem, acho muito comoventes aqueles romances pós-modernos, como Pnin, ou A Primavera da Srta. Jean Brodie, ou O Ano da Morte de Ricardo Reis, ou Os Detetives Selvagens, de Roberto Bolaño, que nos apresentam personagens ao mesmo tempo reais e irreais. Em todos esses romances, o autor nos pede para refletir sobre o caráter fictício dos heróis e heroínas que aparecem no título. E, num excelente paradoxo, é justamente essa reflexão que desperta no leitor o desejo de tornar esses personagens “reais”.

Descrevendo o movimento
O mais difícil é a criação do personagem de ficção. Digo isso devido ao número de romances de escritores novatos que começam com descrições que parecem fotografias. Vocês conhecem o estilo: “Minha mãe aperta os olhos sob a luz forte do sol e, por algum motivo, segura um faisão morto. Está com botas antigas de amarrar e luvas brancas. Tem um ar absolutamente infeliz. Meu pai, porém, está à vontade, extrovertido como sempre, vestindo aquele chapéu de veludo cinza de Praga do qual lembro tão bem de minha infância”. O romacista inexperiente se prende ao estático, porque é muito mais fácil de descrever do que o móvel: o difícil é tirar as pessoas desse amálgama estagnado e movimentá-lo numa cena. Quando deparo uma écfrase extensa como a da paródia acima, me preocupo, imaginando o romancista agarrado a um corrimão, com medo de se soltar.

Flaubert rítmico
Nenhum romancista se preocupou tanto ou tão publicamente, nenhum romancista fez da poética “da frase” um fetiche no mesmo grau que ele, nenhum romancista levou a tais extremos a potencial separação entre forma e conteúdo (Flaubert sonhava em escrever, como dizia, um “livro sobre nada”). E, antes dele, nenhum romancista se compenetrou tanto em refletir sobre questões técnicas. Com Flaubert, a literatura se tornou “essencialmente problemática”, como definiu um estudioso”.

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