A origem das espécies

O biólogo Nelson Papavero prepara dicionário sobre a origem das palavras da fauna brasileira e mostra que muitos bichos tiveram seus nomes extintos antes mesmo que sua espécie fosse ameaçada pelo homemPor Edgard Murano, do especial Etimologia 2011

Para quem pensa que somente os animais estão sujeitos à extinção, os nomes de muitos deles sofreram um extermínio igual ou maior do que as próprias espécies que eles designam. Essa é uma das conclusões do pesquisador Nelson Papavero, do Museu de Zoologia da USP. Biólogo e doutor honoris causa pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, além de especialista em história da biologia comparada e da zoologia no Brasil, Papavero vem preparando desde 1999 seu Dicionário Histórico dos Nomes Populares dos Animais do Brasil, em parceria com o professor doutor Dante Martins Teixeira, da UFRJ.

O trabalho de Papavero e Teixeira é considerado pelos etimologistas como vital para a compreensão da origem dos nomes da fauna nacional. Na obra, constam não só a nomenclatura popular e científica de milhares de animais brasileiros, mas também termos e designações caídas em desuso ou extintas,cujo conhecimento sintetiza a visão de mundo das diferentes nações que formaram o caldo étnico e cultural do país.

O trabalho de catalogação de nomes de animais da fauna brasileira está longe de acabar, garante Papavero. Com 2.800 páginas, 9.150 referências e mais de 54 mil verbetes até o momento, o dicionário ainda não tem previsão para ser publicado, afirma o professor, cuja obra constitui um banco de dados precioso a etimologistas desejosos de se aventurar na “selva” de nomes do país.

Papavero nos recebeu em seu apartamento na Vila Olímpia, em São Paulo (SP), onde falou a respeito de sua “obra em andamento”, abordando questões que extrapolam o âmbito da zoologia para figurar entre os grandes temas da linguagem e da cultura – entre elas a riqueza da linguagem indígena, em particular na designação de sua fauna, bem como a importância de resgatar essa diversidade de nomes que, assim como muitos animais, também estão ameaçados pelo progresso.

O biólogo Nelson Papavero

Quando começou seu interesse por nomes de animais?

Sempre gostei de entrevistar o povo para saber os nomes, adquirir conhecimento, conhecer o folclore e os animais em geral. Fui inspirado pelo dicionário de Rodolfo von Ihering, um clássico, o primeiro grande levantamento do conhecimento popular sobre a fauna brasileira.

Por anos, vim ajuntando dados a respeito e, agora que me aposentei, tenho tempo para realizar a tarefa, em parceria com o professor Dante Martins Teixeira, do Museu Nacional (da UFRJ). Há 12 anos começamos o projeto de fazer o levantamento do conhecimento dos povos do Brasil sobre a fauna.

Como avalia a importância desse trabalho?

Se falo “vespa” na Amazônia, ninguém sabe o que é – lá se chama “caba”. A lagartixa comum de parede, por exemplo, na Amazônia e no Nordeste se chama “osga”, do

árabe “wazaga(t)”; no Espírito Santo é “taruíra” (do tupi taraguira); em outros lugares é “bibra” (alteração de “víbora”). “Lagartixa” só se fala no Sul e Sudeste. Então, é importante

saber, representa um investimento de inúmeros povos, acumulado por milhares de anos e que nos chegou pela tradição oral. Esse conhecimento reúne dados de biologia, medicina, alimentação etc. O dicionário ajudará a suprir falhas e imprecisões do léxico, além de mostrar a evolução do conhecimento de nossa fauna nestes cinco séculos.

Como esse trabalho se relaciona com a etimologia?

Em primeiro lugar, há uma divergência de opiniões fantástica. Para “capivara”, por exemplo, você tem os significados de “habitante do capim” e “comedor de capim”; não podemos resolver isto por não sermos linguistas. Estamos acrescentando às referências

dos nomes todas as tentativas de explicação. “Limpamos” acepções, mostrando a importância de fazer um levantamento bibliográfico – estamos pesquisando obras publicadas de 1500 para cá – e até agora temos mais de 9 mil referências levantadas.

Poderia dar um exemplo?

Um dos casos bonitos que descobrimos foi o de Johannes de Laet, diretor da Companhia das Índias Ocidentais, antes da invasão holandesa no Nordeste. Ele tinha mandado

um navio holandês percorrer a costa. Capturaram um índio tupinambá, levaram-no a bordo e o viram pescar alguns peixes. Ao pegarem um peixe-espada, o Trichiurus lepturus, bicho comprido que parece uma cobra, o índio deu um nome a ele que o holandês – imagine o holandês escutando o tupinambá! – escreveu como ubirre. O nome é um mistério. Um dia, ocorreume que o u- inicial holandês é /i/ (como o u francês), e concluí que o termo era originalmente “imbira”, “cipó”.

Há nomes que sobreviveram após a extinção de um animal?

Nenhuma espécie de que se tem registro de nomes está extinta. A extinção de certos nomes é que foi bárbara. Principalmente no século 18, a língua geral, que os jesuítas criaram, baseada no tupinambá, tinha se espalhado no Brasil inteiro, e virou o nheengatu da Amazônia. Em São Paulo eram raros os falantes de português. O marquês de Pombal fez um decreto proibindo o uso da língua-geral no Brasil. Nesse período – e é incrível como o pessoal seguiu a lei – somem “quilos” de nomes de origem indígena. Na Amazônia ficam, pois lá todos falavam a língua geral. Mas foi um extermínio incrível, alguns nomes você nunca mais vai saber o que eram: nomes de abelhas, de vespas, moluscos, entre outros. São nomes extintos de animais que ainda existem.

Toda reconstrução da trajetória de um nome da fauna é assim tão delicada?

Os índios eram geniais para dar nomes. Um colega de Belém disse que o nome desse bicho na costa de Belém é “guiravira”; conseguimos depois velhos relatos sobre o animal, cujo nome original devia ser “guirá-invira”, ou “peixe-cipó”. Como é “guiravira” no Pará, isso explica o nome holandês. Pesquisar a história é importante para a etimologia e é isto que falta. Por outro lado, incluimos os vários dialetos de guarani, que no Paraguai é uma língua viva e nos ajudou a limpar um monte de nomes que no Brasil sumiram ou ninguém sabia o que eram. “Quiririó” (jararaca) desapareceu no Brasil e levamos anos para saber o que era, mas o nome está vivo no Paraguai e na Argentina.

Qual é o animal com o maior número de sinônimos?

O mais citado, porque todo mundo o comia, era a “preá”. A preá tem uma bibliografia imensa, todo mundo fazia o seu assadinho de preá [risos]. Aliás, os bichos comestíveis são os que mais têm citações, embora o conhecimento indígena não dependesse da utilidade do animal. Havia até uns bichos que “não serviam pra nada”, mas que tinham nome para os índios.

E os mais intrigantes?

Ah, tem. Os nomes indígenas são lindos. Nomes de beija-flor, então, como aba-coaracy (cabelo do sol), guiramimbig (pássaro cintilante)… Os índios tinham uma poesia incrível. Já os portugueses são mais crus, alguns até pornográficos [risos]. “Vaga-lume”, sabe de onde vem? De “caga-lume”. E aí, por eufemismo, botaram “vaga-lume”.

Como vê a correlação entre a taxonomia e a etimologia?

Para que você saiba a que espécie se refere o nome de um animal, o ideal é ter o bicho conservado. Pelas descrições antigas, se o bicho é conhecido, você pode identificá-lo direito. Mas em muitos casos essa informação foi perdida. Sobre abelhas e vespas, por exemplo, os tupis têm um saber extraordinário. Dos moluscos de água doce, tinham nome para todas as conchas e os caramujos – um conhecimento que nem os jesuítas tinham, pois não sabiam zoologia. Perdeu-se por isso muita informação, de milênios, sobre os animais. Hoje, na etnozoologia, um campo de pesquisas muito bonito, especialmente no Nordeste, pesquisadores entrevistam o povo, fazem coletas, preservam bichos em instituições, identificam-nos, de modo que se pode amarrar com maior exatidão o nome à espécie.

O que se conclui dos nomes que o homem usa para os animais?

Por eles se vê a diversidade brasileira; o país é um caldeirão de raças; há várias tribos indígenas… Só consideramos a família tupi-guarani, entre as línguas indígenas, porque foi o legado linguístico que passou para o léxico. Há também os povos africanos, nomes que vêm da China, da Indonésia, que vieram pelos portugueses já nos séculos 16 e 17.

A tradição oral é importante para a etimologia?

Você tem nomes nordestinos, por exemplo, que vêm da Idade Média portuguesa, que sumiram em Portugal e continuam aqui. A toninha, um golfinho marinho que tem um nome popular antiquíssimo, ainda é usado no Nordeste. Nosso país é uma Babel. “Onça” não é nome nosso. Onça era o “guepardo”, a “chita”, uma das espécies que, antigamente, se estendia até a Ásia. O nome que os índios deram era “iaguara”, ou “jaguar”, e isso ficou no inglês, no português culto, mas desapareceu como nome popular, substituído por “onça” que é bicho que não tem a ver com o nosso. “Anta” é um caso espetacular. Vem do árabe lamt, um antílope do norte da África, cuja pele era usada pelos árabes para fazer escudos, poderosos para evitar flechas e lanças dos inimigos. Fora isso, é uma confusão histórica. Os escandinavos faziam escudos de pele de alce, e tanto ele quanto o antílope iam para o norte da África; os portugueses, no caminho de volta das Índias, faziam o comércio desses escudos. Foi aí que misturaram os bichos, e passaram a chamar de anta (que é o antílope dos árabes) os alces do norte da Europa. Quando chegaram aqui, viram a anta – ou o tapir como os índios a chamavam – e pensavam que era a fêmea do alce, e anta ficou sendo o nome do nosso tapir.

A pesquisa sobre um nome de animal ajuda a entender a distribuição de sua espécie?

O levantamento dos nomes populares é importante para entendermos a distribuição geográfica. Um dos importantes resultados de levantar os nomes populares, de fazer

história e fichar a literatura antiga, tem a ver com a distribuição geográfica. Quem faz biogeografia – geografias de mamíferos e aves – sem fazer história está perdido. Porque o que se exterminou de bichos, ou que a área desses bichos se reduziu, é impressionante.

Como definiria a relação entre os nomes populares e a nomenclatura científica?

São dois sistemas distintos. Por isso é importante fazer a relação entre um e outro. Por exemplo, na zoologia você tem uma ciência que é a taxonomia, que tem várias teorias – hoje a teoria vigente é a sistemática filogenética, em que você faz a classificação com base na teoria da evolução. Quando você descobre uma espécie nova há regras internacionais para dar um nome científico; o nome deve ser latinizado; para o chamado “epíteto específico” o autor da espécie nova dá o nome que quiser. Uma das coisas bonitas disso são os “patronímicos”, em que você homenageia um colega ou o sujeito que descobriu a espécie, como o mosquito cruzi, por exemplo, em homenagem a Oswaldo Cruz. Isso é comum na zoologia e na botânica. Na prática popular, a taxionomia folk precisa ser mais estudada. Nessa área às vezes você até tem um sistema de classificação. Há poucos estudos bem feitos nessa área, que demonstram que os índios usam as bases lógicas muito parecidas à “taxonomia aristotélica”, um sistema atemporal. Para a maioria das tribos, têm-se nomes “soltos”, criados sem uma hierarquia tal como a observada na classificação científica.

No seu dicionário, qual o tipo de animal mais recorrente?

O grosso dos nomes, mais da metade, é de nomes de peixes. E não para de aparecer nome novo. Principalmente na Amazônia, onde os rios são imensos. E agora estão fazendo pesquisas de campo, entrevistando os ribeirinhos da região, e há grande variedade de nomes, tanto de peixes marinhos quanto de água doce. E depois vêm as aves, os mamíferos… Estes são os grupos mais conhecidos. À medida que você desce na escala zoológica, os nomes vão rareando. Insetos, só os que picam e têm interesse médico ou veterinário são conhecidos. Chegando às esponjas e a outros animais, os nomes ficam mais raros. Mas alguns somem mesmo. Por outro lado, o conhecimento do povo evolui, como tudo no mundo. Há a adaptação de termos modernos para os bichos. Na Bahia, por exemplo, tem um peixe marinho que se chama “bode-ninja”. Mas a maioria dos nomes continua. A tradição oral é fortíssima.

A maneira como a taxonomia folk batiza um animal reflete uma época?

Até o século 18, a maioria dos nomes era de origem tupi. A partir do decreto de Pombal, muitos nomes sumiram e foram substituídos por nomes portugueses, que às vezes você não sabe de onde vêm – e são raríssimos – embora continuem existindo nomes de origem indígena. Você tem o aporte dos africanos, que é pouco, e também pouco conhecido e estudado. Nesse momento, trabalhamos com manuscritos de um jesuíta alemão que esteve no Ceará no século 18. Foi ele quem grafou o primeiro e único nome africano de que se tem notícia para o cupim no Brasil: salalé, nome que ainda está vivo em Angola. E você também tem os aportes modernos: a influência da TV, do cinema etc. Uma colega descobriu um peixe novo, que é praticamente redondo, e ela perguntou ao pessoal: “Vocês têm um nome para esse bicho?”. Eles responderam: “Ah, a gente chama de ‘CD’!” [risos]. O povo é maravilhoso. Assim, o importante é não só resgatar um investimento de milhares de anos, de vários povos, mas também poder se comunicar com diferentes culturas e nações, conhecer a distribuição geográfica e ver a área antiga ocupada pelo bicho.

Há nomes de bichos mitológicos?

Sim, há muitos animais míticos: onças, veados… Ou seja, nomes que derivam de nomes de outros animais, mas são seres mitológicos. Por outro lado, havia antigos seres mitológicos que nós estamos demonstrando que não eram mitos, mas existiram mesmo. O bicho existia, mas os jesuítas achavam que era mitológico, obra do demônio. Por exemplo, a ipupiara. A história se deu no século 16 em São Vicente. Há folhetos da época que foram traduzidos em várias línguas com desenhos do bicho – hoje raríssimos, em italiano e alemão – cuja história é a seguinte: em São Vicente, um sujeito estava dormindo. Uma índia foi à praia e viu um monstro. O sujeito acordou, desembainhou a espada, lutou contra o monstro, que o matou. Há vários cronistas da época – Gândavo, Cardim etc. – que tratam do caso. Um livro, que se encontra no Museu Britânico, descreve o tal monstro, sem dúvida um leão-marinho, o Arctocephalus australis. A descrição é muito boa, mas depois foi fantasiada, o monstro ganhou pés de passarinho, bico etc. [risos]. Outro é o terepomonga, nome tupi. Pomong é “grudar”. Era um bicho jogado pelo mar na praia, que o sujeito, curioso, cutucava com o pé e ele grudava; ao tentar usar o outro pé para livrar-se, este também ficava grudado. A nossa hipótese é que seja um peixe da família Gobiidae, cuja nadadeira ventral se tornou uma glândula de muco com a qual ele adere às pedras. Com isso fantasiado – os jesuítas viam o demônio em tudo! – passou a ser o famoso monstro terepomonga.

Há nomes que, pela pesquisa das origens, apontam algum preconceito ou ignorância?

Está cheio de exemplos. Tem a bibra. Um lagartinho inofensivo, mas como bibra é alteração de “víbora”, o pessoal o considera venenoso. A boipeva, por exemplo, é citado como venenoso, mas só é agressivo e morde. É importante entrar em contato com todo esse conhecimento popular para poder educar a população.

Em seu dicionário, qual a incidência de línguas no tocante à origem dos nomes?

Sem dúvida predominam os nomes de origem tupi, o que se deve a milênios de observação da fauna e da flora por parte dos índios. Os jesuítas começaram a fazer os primeiros vocabulários e criaram uma língua-geral, que se disseminou por toda a América do Sul deste lado dos Andes – vai até a Venezuela – e esses nomes se espalharam e ganharam uma distribuição geográfica vastíssima. Há nomes do Velho Mundo, que chegaram via português, do hindu, árabe, indonésio… A ema, por exemplo, originalmente era um nome da Indonésia. É o emu. O nome tupi é nhandu. A ema é o emu da região oriental. Os portugueses confundiram as duas aves… Em segundo plano, temos os nomes que vêm do português. Há até do chinês. O Pecten, essa concha do logotipo da Shell, é chamado leque, originalmente um nome chinês, porque quando os portugueses iam para o Oriente, passavam na ilha de Lei Kiu para comprar “leques”. Nomes africanos, por sua vez, são poucos.

Esta entrevista, além de outros artigos sobre a origem das palavras, estão no especial Etimologia 2011

Os índios aclimataram todos os nomes de animais que vieram de fora?

Desde o século 17 houve uma certa troca. Os portugueses aprenderam muitíssimos nomes indígenas e eles adaptaram só alguns dos portugueses. Há bichos que os portugueses trouxeram, como o cachorro. Qual era o bicho mais “próximo” a ele? A onça. Os indígenas passaram a chamar o cachorro de “jaguara”. E a “onça”, que era o verdadeiro bicho, passou a ser “jaguaretê”. Na literatura, se você lê “jaguaretê” (“etê” é “verdadeiro”), sabe que é onça. Já no caso de “jaguara”, precisa-se ver bem o contexto para saber se estão falando

da onça ou do cachorro. O boi e a vaca, por exemplo, não existiam aqui. Que bicho era mais parecido? O tapir, a anta. Então a vaca e o boi foram chamados de tapir, e a anta, ou tapir verdadeiro, ficou como tapiretê. “Galinha” foi adaptada do português, arinham. E o peru, arinhamuçu, a “grande galinha”. “Cavalo”, os índios adaptaram – como se fossem japoneses – para cabaru.

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Mais informações sobre o especial Etimologia 2011 aqui.

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